"Celebridades"
Entrevista concedida ao Jornalista "Sergio Dias" Jornal A Palavra

1. No meio secular, os artistas fazem questão de separar o mundo deles (celebridades) do mundo real (fãs e grande público). No meio evangélico, onde propagamos a irmandade em Cristo, alguns cantores, pastores, missionários, evangelistas, etc., tem tentado agir da mesma forma. Como o Sr. encara esse fato?
A maioria das chamadas "celebridades" evangélicas só agora está aprendendo a lidar com a fama. Logo, nesta área a maioria ainda é "menino", assim age como "menino". No entanto, vejo grandes nomes que são extremamente atenciosos e humildes. Dando atenção, aceitando convites e honrando a Deus. Passada a primeira "onda", as chamadas "celebridades" vão colocar a cabeça no lugar e melhorar sensivelmente o agir diante da fama.

2. O Sr., como pastor, acredita que haja uma comercialização do Evangelho por parte de algumas destas pessoas, assim como Jesus disse em Mateus 21, versos 12 e 13?
Sempre houve problemas na igreja e eles nunca acabaram. Ë só ler o Novo Testamento ou estudar a história da igreja para dar-se conta das dificuldades em variadas áreas. O ser humano de hoje é o mesmo do passado. Mudam as circunstâncias e desafios, mas o homem continua igual. Portanto, é de se esperar que também hoje há na igreja alguns que comercializam o Evangelho.


3. Por que, em sua opinião, algumas destas pessoas, quando atingem uma suposta "fama" no meio gospel, fazem questão de se isolar dos irmãos de outras igrejas, que desejariam ser abençoados por suas músicas ou pregações?
Não acredito que eles queiram isolar irmãos de outras igrejas. Na verdade, eles recebem muitos convites. Alguns chegam a receber mais de 200 convites mês. Como selecionar? Como atender a todos. Logicamente se eles tem um alto custo ministerial, com músicos e pessoal de retaguarda, eles acabam optando pelas igrejas que oferecem mais. porém, sei de muitos que aceitam convites de pequenos grupos graciosamente, como se estivessem dizimando.


4. A Bíblia diz que todos somos irmãos, através de Jesus Cristo. Essa onda de "celebridade" gospel não quebra esta passagem bíblica?
Deus não faz distinção de ninguém. Diante dele todos somos iguais. Mas não há como negar que alguns de nós alcançaram grande visibilidade. Assim sendo, eles, como as "celebridades" seculares, precisam ter cuidados consigo mesmos que irmãos comuns não precisam ter. O cuidado deve haver, o que nao deve existir é o orgulho, a ostentação, a vaidade. A "celebridade" não pode deixar de ser ovelha e prestar contas dos seus atos ao seu líder espiritual.


5. A fama e o estrelato isolam as pessoas? Por isso elas se escondem e criam seus mundos?
Nem todos vivem isolados por causa da fama. Lógico que é preciso preservar a privacidade e a vida pessoal. Humildade não significa permitir que a vida privada se torne assunto em todas as bocas. Humildade é uma atitude do coração essencial para se continuar no topo.


6. Mas, a Bíblia não diz, como em Atos 10, versos 25 e 26, que não existe diferença entre as pessoas? Como o Sr. orientaria o público a proceder na admiração à estas pessoas?
Da mesma forma que alguns permitem que o sucesso suba a cabeça, existem aqueles que agem como fãs e não como adoradores do Deus Vivo. Existem muitos homens e mulheres que admiro sinceramente. Procuro honrá-los e imitá-los. Mas não vivo em busca deles o tempo inteiro, sufocando-os com atenção extremada. Alguns, ao transformar o servo de Deus em "ídolo", demonstram desconhecer a Palavra de Deus. Outros, ao desprezarem e condenarem aqueles que Deus exalta, mais do que estarem preocupados com a defesa da fé, parecem padecer de ciúme.

7. Quanto à idolatria (que muitas vezes beira o histerismo), o Sr., na posição de Pastor e formador de opinião, acredita que existe incentivo à esta prática por parte destas pessoas famosas?
Já que, para a maioria, o problema é novo, como disse anteriormente, nem a "celebridade", nem o "fã", sabem lidar com sabedoria com o problema. Como líder da igreja devo orientar e formar o corpo de Cristo para que os extremos sejam evitados. Antes de condenar, devemos ensinar.

8. O Sr. é contra ou a favor de cantores e ministros do Evangelho cobrarem para cantar e pregar nas igrejas? É certo fazer acepção de igrejas (maiores x menores) por conta da oferta pedida?
Não posso falar por outras pessoas. Prego o Evangelho a 37 anos. Desde os 20 anos viajo por este mundo de Deus pregando a Palavra. Já preguei em Favelas, morros, praças, hospitais, presídios, casas de famílias, igrejas de cidade grande e interior. Iniciei 23 igrejas. Na maioria delas quase nunca recebia meu subsídio de forma integral. Sempre construindo, ofertando e privando minha própria família de conforto para fazer a obra de Deus. Cheguei a doar carros e até móveis para dar o exemplo e abençoar o Reino de Deus. Nunca pedi nada. Algumas vezes, pregava 4 dias em uma igreja e nao podia voltar para casa, pois a oferta que me deram nao foi suficiente para pagar a passagem de volta. Sou pastor a 34 anos e ainda nao tenho minha casa própria.

Só agora, depois de mais de 30 anos de ministério, recebo, de algumas igrejas, ofertas generosas que continuam a ser aplicadas no sustento do meu ministério. Gostaria de continuar, como no passado, pregando em todos os lugares, enchendo minha agenda anual em janeiro, como fazia. Entretanto, Deus me tem dado oportunidades enormes. Posso falar a líderes e não somente a leigos. Posso falar a muitos casais e não mais a uma só família. Posso falar para empresários não evangélicos e não apenas a um grupo que já conhece a Palavra. Não posso estar em todos os lugares que me convidam, logo tenho que escolher onde serei mais efetivo.

De 5 anos para cá, tenho um grupo que ora e me ajuda a selecionar as igrejas onde prego. Seria muito bom poder pregar sem pensar na vida financeira. Porém, a própria Palavra ensina, "quem prega o Evangelho, viva do Evangelho". Parece que muitas igrejas se esquecem desta verdade.

É lógico que existem muitos absurdos. Cobrar uma quantia exorbitante para pregar o Evangelho nunca terá base Bíblica. No entanto, permitir que um pregador ou cantor volte para casa sem o mínimo para sustentar com dignidade sua família também não é cristão. Gostaria de conhecer alguém que prefere ir em uma igreja que nada lhe dá nada, nem mesmo a gasolina, para não dar lugar a críticas ou a fama ou ao orgulho, do que aceitar um convite de uma igreja que oferece uma grande oferta para pregar em um grande evento.

ESPERO TER SIDO CLARO.

EM CRISTO
Dr. Silmar Coelho